
Curta-metragem:
O Ladrão (2024)
Assista ao curta aqui: YouTube
Sinopse: Através de fotos, vemos a briga entre o real e o imaginário em toda a estrutura do filme; nas representações imagéticas, nas relações exploradas e na metalinguagem que define os personagens..
Pensamentos sobre o filme
Nessa seção, eu falarei sobre o significado do filme, assim como meus pensamentos sobre ele depois do seu lançamento não-oficial. Se você deseja manter sua própria análise da obra, eu sugiro me ignorar completamente aqui.
O Ladrão foi um projeto que eu fiz para a matéria de direção de arteda minha faculdade. Enquanto eu estava tendo a obrigação de passar bastante tempo conceitualizando diferentes aspectos da substância do curta, eu criei o conceito do Ladrão. Eu aprenderia a evoluir esse conceito até que fosse uma parte permanente do meu "branding", como o apelido que eu usaria de mim mesmo em aspectos artísticos e também o nome do complexo pequeno de sites que eu encabeçava.1 Eu não lembro se eu já expliquei publicamente por que esse nome foi escolhido, então me acompanhe.
O ladrão foi um conceito que eu criei, no começo, para o filme. O tema principal do filme foi sobre a ideia de uma musa. Quando um artista ama alguém, ele cria uma musa da pessoa, uma figura que será presente nos pedestais dos trabalhos dele pelo tempo que o amor perdurar. Mas além do artista e da obra concreta que ele exibe, todo mundo tem uma imagem de uma outra pessoa na sua cabeça, e quando seus sentimentos são muito intensos, sejam eles positivos ou negativos, aquela imagem nunca vai ser igual à pessoa de fato. Na verdade, independente da intensidade do sentimento: sua imagem de alguém nunca vai ser a mesma da pessoa real.2 E essa era a ideia que eu queria esticar e estudar no filme.

No caso de você não saber, o filme era sobre uma pessoa que eu amava muito intensamente naquela época. Eu escrevi incontáveis músicas sobre ela, mas uma importante para esse assunto é uma chamada Canyons, a primeira música que escrevi para ela e a música que impulsionou basicamente todas as músicas que escrevi depois dela. Eu adoraria falar sobre ela em um dia diferente, mas Canyons foi uma música que foi composta e escrita numa maneira muito diferente se comparada com as músicas que escrevi antes dela. Depois de Canyons, toda música minha tentava não só vir de um lugar parecido, mas também ser tão inventiva quanto eu tentei ser com sua melodia.3 Não há nada muito complexo sobre a estrutura e a composição da música, mas foi a primeira vez que eu escrevi algo e me senti como um artista irreconhecível. Parecia algo que nunca poderia ter sido escrito por mim, mas foi. E desde então eu tento recapturar essa sensação, essa de criar algo além de suas capacidades atuais.
E Canyons, mesmo com o tanto que eu a bajulo e realmente acredito ser bem escrita, foi o primeiro momento onde eu tentei representar aquela pessoa que eu amava na minha arte e que vi o espaço (o cânion) entre a imagem e o real. Como seu sempre dizia pra ela depois que ela descobriu que a música era pra ela, e assim como eu também a disse quando ela viu o filme já que veio de lugares parecidos, eu sentia que eu estava falando muito mais de mim do que dela naquelas obras. E isso é o que as imagens são, elas são reflexos da nossa própria pessoa sendo espelhadas na frente da coisa real, e que nós fingimos que elas substituem a coisa real de fato.4 Quanto mais eu refletia sobre Canyons durante o período que eu pensei no conceito do filme, mais eu notava que eu inferia muitas coisas sobre ela que eram mais atreladas a como eu via ela do que como a vida dela realmente era. Mais e mais, assim que alguma arte era criada sobre ela, eu tinha que entender que o que era representado era sempre uma imagem, até na arte positiva.5
Então o filme era pra ser sobre ela confrontando essa imagem dela mesma que eu criei na arte que fazia sobre ela. A ideia, da qual eu era muito orgulhoso sobre na época, era que no final, ela explicaria como ela realmente se via. Só que a coisa é que você, como o espectador, entendendo que o filme é uma crítica da imagem que criamos de outras pessoas, precisa ver ela fazendo isso e entender que até nesse mesmo momento essa não é a real imagem da pessoa real. Até quando a personagem descreve como ela realmente se vê, essa ainda é a imagem que o roteirista criou dela (Magritte de novo).6
Eu gosto que meus filmes e meus projetos inteiros tenham uma tese. Que eles tenham uma resposta que eles tentam buscar, que só pode ser conseguida no final. A tese do filme (desculpa por estragar a realização de tentar entender isso sozinho) é que não há realidade na percepção de um filme.7 Ninguém nunca vai ser capaz de se explicar através da arte que elas não fizeram sobre elas mesmas. Filmes são eternamente ficcionais, eternamente enviesados, imagens eternamente incompletas da realidade. Mas algo que não coloquei no filme é que não é porque a imagem é incompleta que ela precisa ser negativa. Você só precisa entender que é diferente da coisa real. E entendedno isso, você pode finalmente fazer arte.8
- O ladrão que falava sobre no meu site e o ladrão do filme são ladrões diferentes. Eu explicarei na oitava nota de rodapé. ↩︎
- Parte do meu interesse por essa ideia veio de uma aula que meu professor falou sobre a pintura de Magritte; o conceito é o mesmo. ↩︎
- Um dos aspectos que eu mais gosto de Canyons foi como eu compus a melodia, mas ninguém mais sabe como a música é cantada fora eu. ↩︎
- Parte disso (mas não o conceito inteiro) eu planejo (e meio que já fiz um pouco) explorar no que espero ser meu segundo álbum, A Woman Mirror (O Espelho Mulher); a expansão da minha dependente e insalubre visão das mulheres (a Parede Mulher, mulheres como figuras divinas) sendo reflexões sobre minha própria femininidade, e como sem as mulheres da minha vida eu não seria metade do homem que sou. ↩︎
- O cânion era pra simbolizar muitas coisas. Nossa distância física real, por exemplo, sendo um espaço gigantesco e vazio. Esse mesmo espaço, em outro momento da música, poderia ser um lugar em que você poderia gritar dentro dele e ser capaz de "encher" com sua voz, já que sua voz era tão grande como aquele lugar colossal. Era uma metáfora sobre a profundidade da conexão humana, também, e o sentimento de não conseguir se conectar profundamente com outras pessoas. Era, claro, uma metáfora sobre nosso amor, como a última frase sugere. Eu não explicarei muito sobre a última frase, mas ela falava do cânion como uma metáfora para o dano causado; a erosão que cria um cânion, pelo menos, e como sem aquela destruição você não tem a visão linda de um cânion. Foi o jeito mais gentil que eu consegui de dizer que eu amava tanto ela que esse amor me machucava, e eu sou muito orgulhoso daquela frase. ↩︎
- Essa é a razão de eu dizer "... e na metalinguagem que define os personagens" na sinopse, aliás. A intenção do filme é ser meta. ↩︎
- Eu tive muitas aulas falando sobre documentários, e a maioria foi precisamente sobre isso: o filme, até um documentário, nunca será real. Ele sempre vai precisar passar pelos olhos do seu criador, eternamente criando uma existência diferente das pessoas e dos eventos reais. ↩︎
- O ladrão, sendo um conceito adaptado para o site (e a pessoa que falo na minha canção Thief, que toca no final do filme sem a letra), significa "uma pessoa eternamente culpada sobre tudo que ela é acusada de fazer. O ladrão, nesse contexto, não é necessariamente um roubador como ele é no outro contexto (aquele de ser o ladrão da identidade de alguém para colocá-la em sua arte); ele é um prisioneiro, alguém que precisa pagar pelos seus crimes. Bem autocompassivo, né?
Bem, algumas coisas aconteceram com um grupo de amigos mês passado. Eu estava chateado, mas não com eles, mas estávamos conversando e eles acharam que pelo meu tom eu tinha dito algo maldoso pra eles. Eles comunicaram isso, mas a diferença entre como eu achava que eu estava sendo visto e como eu realmente fui visto era grande demais; na minha cabeça, eu não fui nem um pouco maldoso. Eu lembro de passar semanas me desculpando por qualquer coisa que eu diria, caso eu não soubesse como tudo estava saindo. Bem, o ladrão fala também sobre isso. Era uma coisa antiga que eu costumava me martirizar sobre: como as pessoas poderiam achar que eu diria coisas horríveis sobre elas depois de eu ter dito coisas tão boas. Era uma das minhas maiores inseguranças; o quão diferente era a imagem que eu tinha de mim mesmo e a das outras pessoas. Em meu auto-ódio, eu então achava que todo mundo secretamente me odiava e esperava o pior de mim; e claro, elas estariam corretas porque aquela imagem era correta.
Isso é também porque eu terminei o site: esse conceito não existe mais. Depois de tanto tempo, depois de tanta autocompassividade, e depois de tanto apoio desses amigos (e de uma amiga especial com quem falei hoje), eu percebi que a imagem que eles tinham de mim era sempre positiva, e nunca definida pelos meus momentos difíceis. Eu percebi que a imagem que eu criei de mim não era a imagem que eles tinham de mim em seus corações, e que a deles não era negativa como pensei. E apesar disso, nenhuma imagem é correta, como uma fiel representação de um ser. Eu quero ter uma imagem melhor de mim em minha cabeça, então não há espaço mais para ser um ladrão. ↩︎