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Mistérios da Carne (2004)

3–5 minutos

·

5 de setembro de 2026

·

Crítica Amadora

[Texto escrito em setembro de 2025]
[Texto originalmente em Português]

Pra ser honesto, há um tempo eu tinha uma mente que não sabia como reagir à certos cantos da realidade sendo retratados em filmes. Dependendo do tema, eles não poderiam ser como tatuagens e viver à parte de uma razão; alguns temas simplesmente não são adornos para histórias. Mas acima disso, eu achava que eles não deveriam nem mesmo ser retratados. Eu não achava que você precisava ver uma cena de estupro, por exemplo — a capacidade do tema de se tornar gráfico me parecia sempre extremo demais, e feito na única intenção de chocar a audiência, equalizando uma cena de abuso com um jumpscare de filme de terror em questões de qualidade substantiva e simbólica. O assunto se torna ainda mais complicado quando também retratamos a pedofilia, pois agora atores mirins geralmente estarão envolvidos no processo para transmitir a sua mensagem, que cambaleia em uma corda bamba sem qualquer segurança de se tornar efetiva ou necessária. Aos instrumentos que conduzem uma história, mesmo que ela não possua mensagem alguma, mesmo que ela seja gutural e violenta e humana, não há espaço para que as mãos ensanguentadas dos artistas se escondam quando achamos o corpo morto de suas sensibilidades.

Então, assisti Mistérios da Carne de Gregg Araki, uma adaptação de um livro de mesmo nome escrito por Scott Heim. Não foi o primeiro filme que desafiou esse conceito em minha cabeça de que certas coisas não devem ser retratadas em filmes, mas havia algum tempo que não observava um filme oscilando entre o pesado e o leve tão bem. O peso que cai sobre os ombros de alguns personagens desse filme é maior do que a maioria das pessoas que o assiste conseguiria entender, mesmo como mestres da empatia. No entanto, ao ver Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt) e Brian Lackey (Brady Corbet) progressivamente se perderem em um tempo que não parece andar, estamos com eles (como a posição da câmera continuamente nos força a estar) em seus momentos de dúvida e angústia, estáticos perante a presença eterna de um longo, longo verão.

Pelo filme inteiro, Neil demonstra uma reação incomum ao receber afeto das pessoas que ele mais ama. Sua mãe e Wendy o dão carinho, e de repente ele parece ser uma criança de novo. Ele sussurra uma resposta, fica sem graça e quase confuso. Ao que vimos no filme, não lhe faltava amor materno em casa; sua mãe o enche de beijos sempre que o vê. Ela se preocupa muito com ele, isso é um fato. Wendy também; ela parece conseguir se aconchegar dentro de uma área em Neil repleta de espinhos, onde ele a espera para envolvê-lo em um abraço quente e sem sangue. Nos é revelado, no entanto, que Neil parecia guardar seu treinador de infância num espaço confuso dentro de si, onde eles se entendiam e "se amavam" verdadeiramente, também. É como se o seu antigo treinador se movimentasse sem som entre todos os quartos com todos os homens que ele se deita — um "fantasma", como ele descreve no final do filme. Nós nos encontramos fixados em uma criança já crescida que não consegue se entender com o seu lado que, na época, vivia e permanecia na situação. O quão culpado ele se sente, o quão errado, o quão imóvel. Sexo se torna a sua língua materna nos anos seguintes, dialogando e transitando entre mundos de adultos que deveriam acolhê-lo, mas apenas alimentam a fumaça de sua inocência que queima o preto do preto. Esse conflito entre a sua ideia do que acontecia quando era criança com a realidade — o horrendo abuso contínuo de seu treinador — é explorado de certas formas que nos buscam acrescentar ao silêncio entre palavras a mais adornada melodia, como a marcha fúnebre da inocência.

Ao ver o filme, eu percebi as qualidades de um diretor que entende os perigos de sua obra poder chocar para esconder que ela não quer dizer nada sobre nada. Mistérios carrega com excelência o peso da história contada por Heim, demonstrando a técnica que supera o técnico do filme: a delicadeza. O filme não titubeia em pena, não olha para eles com um olhar que só os faz crescerem mais distantes do mundo, que os faz se sentirem pequenos para sempre. Araki o choca, mostra ao espectador uma realidade grotesca e o faz encará-la até depois da imagem já estar gravada em sua cabeça, mas ele tem em suas mãos de cirurgião a batuta que age como um bisturi, separando a dança podre de uma língua negra do resto do corpo, esse solo salino por onde flores mais teimam em nascer. Ele demonstra um carinho pelos personagens e seus sofrimentos, fazendo-os crescer em partes que eles acreditavam terem sido cortadas para sempre.

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