
[Essa é uma crítica que escrevi para o meu projeto de conclusão do curso de cinema, uma revista de ensaios cinematográficos chamada Close Up, que não existe mais. Apesar do nome, a Close Up era uma revista escrita em português brasileiro, então, se você entende português, recomendo que clique na pequena bandeira do Brasil para ler o texto em seu idioma original. Carregando minha escrita pessoal de sempre, esta crítica foi escrita por volta de maio de 2025, enquanto eu refletia sobre um término.]
Há um ano, a vida me ocorreu de diversas formas, eternas em sua brevitude. Meus percursos longos até a faculdade ganhavam cores diferentes. Eu desenvolvi ataques de pânico, preso a um ônibus sem paradas por duas horas no trânsito carioca. Como um tema recorrente em minha vida, eu me sentia ansioso estando em uma situação cujo fim eu não conseguiria ditar; não havia como sair daquele ônibus quando ele já estava em curso. Nesse tempo, eu mudei minha rota. Em vez de um ônibus, agora eu pegava dois e mais um BRT. Eu levava um pouco mais de tempo para chegar até a faculdade, mas o caminho agora tinha muitas paradas e não havia trânsito nenhum. Além disso, o caminho era muito bonito. Eu escutava alguns artistas durante esse trajeto; a maioria eram pessoas com violões e vozes solitárias. Eu me sentia muito feliz nesse novo caminho.
Esse ano, enquanto eu comentava o quanto eu ansiava no dia anterior à aula sobre o caminho até a faculdade, um amigo me lembrou desse tempo. Me lembrou que houve dias em que a viagem era a pior parte, dias em que suas cabeças ditavam as ansiedades do resto de seus corpos. Hoje, é minha parte favorita do dia, na maioria das vezes. O ônibus que pego passa, por volta das seis e meia, em uma praia da Ilha onde eu moro. Eu sempre me cuido o máximo possível para escolher músicas perfeitas para tocarem assim que a praia se aproxima. Eu olho as árvores em volta e o céu rosa e as pessoas acordando, e nunca consigo esconder um sorriso porque algumas árvores são simplesmente lindas demais e o céu sempre parece uma pintura. Pego os transportes sentado e do lado da janela, sempre, porque consigo sonhar melhor dessa forma. Eu olho pela janela, hipnotizado por estar na presença da maior beleza de todas, que é ver o mundo desabrochando na lenta luz da manhã.
Porém, e isso eu disse ao meu amigo, não é a mesma coisa que há um ano atrás. É uma outra beleza, e é uma bela beleza, mas naquele momento ela era ocupada por outros olhos que pudessem vê-la. Gosto de dizer que meu mundo se vestia de forma diferente, como as nuvens vestem o amarelo do céu no que parecem ser pinceladas divinas. Eu costumava ver essa beleza de outra forma, e agora o céu, rosa ou amarelo, e as nuvens e a praia e as árvores... Todas morrem incompletas em meu dia. Tem alguma coisa faltando.
Através de toda a extensão de Vidas Passadas, filme de 2023 de Celine Song, vemos personagens observando o mundo exterior e suas paisagens através de janelas, como o mais marcante paralelo entre o Hae Sung criança segurando a mão de Nora no começo do filme e o mesmo, agora adulto, refletindo sobre seu encontro com ela na última cena do filme. A própria Nora adulta é apresentada por uma cena — apenas interior, ao contrário das de Hae Sung — onde olha por uma janela de um carro, também, enquanto pensa. A sutileza pela qual o roteiro, a atuação e a direção demandam e se expressam fazem com que nós possamos crer na existência de um universo particular denso e complicado na cabeça de cada personagem principal, onde seus pensamentos são especulados pelo espectador, que vê de fora e tenta decifrar o que se passa por lá; enquanto eles olham de dentro para fora de suas janelas, o filme nos provoca a olhar de fora para dentro.
Nada deixa isso mais evidente do que a primeira cena do filme, onde vemos Hae Sung, Nora e Arthur numa mesa de bar, conversando entre si, enquanto um casal em uma mesa próxima tenta entender qual a relação das três pessoas ali sentadas. Se dizem que "todo poema te ensina a interpretá-lo", o filme, em sua primeira instância, naturaliza você ao processo do qual ele quer que você o entenda. A vista à distância para algo tão íntimo e próximo. A conturbada e indecifrável cabeça dos envolvidos. A leitura minuciosa aos detalhes de seus movimentos, como se pudessem dizer uma história que as palavras de um roteiro não conseguiriam alcançar. Através da distância que tomamos das complicações por todo o filme, há espaço o suficiente para que elas implodam em nossa frente, enquanto tentamos entender os personagens pelo que eles não dizem. Tem alguma coisa faltando.
O que Hae Sung não diz é o bastante para uma hora extra de filme, mas a sua conexão com Nora também é criada pelos espaços nela em que ele reside e se expande, espaços encontrados em suas pequenas palavras. Eles possuem uma conexão que sempre volta Nora a um lado que ela não consegue mais alcançar ("A Na Young que você conhecia não existe aqui"), mas que é impossível de se afastar; seu lado coreano, sua criança interior. Ele a chama de um nome que ninguém mais a chama, que faz parte de seu antigo nome coreano. Ele fala com ela em uma língua que, como Arthur percebe, ela praticamente só usa em seus sonhos.
No início, já após 12 anos da infância de ambos, isso era o suficiente para que ela morasse e se deitasse sob um pôr-do-sol que não fazia parte de sua vida há muito tempo. Ela arranja um tempo do seu dia, acordando bem mais cedo, para conseguir falar com ele. Já ele a leva por aí, inclusive para um bondinho observando a paisagem de Seoul. A conexão cai na hora que ela deseja ser mais clara com ele, sendo o jeito do filme de responder que algumas janelas, talvez, não sejam feitas para serem vistas de tão longe, pois a experiência não seria a mesma. Você pode ver a mesma paisagem que a outra pessoa, uma bela beleza de um Sol indo dormir, mas tem alguma coisa faltando.
Após a conexão dos dois ser quebrada por Nora, Hae Sung desiste de enviar um texto pra ela após ver um casal conversando e rindo no metrô. Ele parece, naquele momento, perceber o espaço do que faltava no que ele queria construir com Nora. Os dois se abandonam por completo. Nora não tem interesse em se prender a algo que já havia abandonado anteriormente, sua vida coreana, em troca de prejudicar a sua vida americana. Hae Sung, após finalmente encontrar e conversar por um tempo com alguém que ele sempre quis ter contato, precisa abandonar a ideia de que Nora era o que estava faltando em seu ser incompleto. Entender que haverá sempre algo faltando, mas que humanos ainda não têm asas para voar ou guelras para nadar. Você pode criar um avião para ir até os céus ou um submarino para ir até o fundo do oceano, mas serão mais janelas das quais você vê de dentro. Tem alguma coisa faltando. Não será um voo como o de uma ave ou o nado como o de um peixe. Hae Sung será, dessa forma, eternamente incompleto, e precisará se imaginar satisfeito com isso1.

Chegamos, então, a Arthur, o parceiro romântico de Nora. É interessante entender o modo como ele é apresentado; por exemplo, enquanto temos a Nora criança e ainda morando em Seoul dizendo que gosta de Hae Sung por ele ser "másculo", uma das primeiras cenas de Arthur com Nora é com ele deitado na cama com ela, enquanto ambos estão em posições "trocadas" se seguidos os estereótipos de gênero; ela está deitada reta e acariciando os cabelos de Arthur enquanto ele está em posição de conchinha2.
Arthur não segue os estereótipos de alguém másculo, mas a Nora de Nova Iorque não se preocupa com isso. No entanto, ela comenta sobre a masculinidade de Hae Sung de novo, mas para Arthur depois que ela encontra Hae Sung adulto pela primeira vez. Cada vez mais, a imagem de Hae Sung na cabeça de Arthur se torna alguém com quem Nora tem uma conexão muito maior que os dois possuem, mesmo casados.
Isso nos leva a cena de Arthur e Nora na cama, onde ele se abre moderadamente para que ela entenda o que o incomoda em Hae Sung. Quando Arthur diz que ele "seria o marido branco malvado" da história deles, a cena se torna necessária para invocar a simpatia que Celine quer que o público tenha por Arthur, público esse que deve achá-lo culpado de alguma coisa e de alguma forma. Arthur é a pedra no meio do caminho para a história que o público quer ver, e o discurso desse potencial público é exato nas palavras dele na cama.
Ele, então, comenta sobre como eles se conheceram. Ele dá a entender que ele apenas está com ela porque ele chegou primeiro. Ele apenas encontrou ela enquanto ela estava solteira, os dois coincidentemente moravam no mesmo lugar, e a conexão aconteceu. A verdade é que Arthur está certo. Mas a parte engraçada é que quase todas as conexões do mundo são de pessoas que "chegaram primeiro".
Olhar para possíveis possibilidades com pessoas hipotéticas é da maior irrelevância para o presente, se o amor entre os dois realmente existe. Se não há apenas um luxo em não perder Arthur por parte de Nora, mas sim algo que ambos construíram que a leva a tê-lo por perto. Como Hae Sung diz posteriormente, "para Arthur, você é alguém que fica". Ela não pode tê-lo apenas porque não quer partir novamente, ela o ama de verdade.
Pensamentos extensos de qualidades diferentes são vagantes demais, mas não os ter é inconcebível para algumas pessoas. "O que teria acontecido se eu não tivesse respondido aquela mensagem?" "O que teria acontecido se eu não tivesse encontrado aquela pessoa naquele dia?" Bem, outra apareceria. Outra chegaria primeiro. Mas então, tem como saber? Tem como sentir que há alguma coisa faltando, então? Uma pessoa que deveria estar ali e foi substituída?
É um pensamento irrelevante, como sentir que está esquecendo de algo assim que sai de casa, mesmo sabendo que não está. A certeza é algo impossível de se ter na vida sobre qualquer coisa, mas o filme nos apresenta o conceito da segurança de um amor; Nora ama Arthur e é só isso que importa, como ela diz a ele.
Nora nega a existência de um In-Yun entre ela e Arthur quando os dois se conhecem, mas ela confirma que o possui com ele para Hae Sung em seu último encontro com ele no bar. O amor "certo" não se tornou suficiente apenas por chegar primeiro, mas por tudo o que fez para encher esse espaço de tempo entre o seu começo e o tempo presente. Se negarmos o amor até a "pessoa certa" aparecer, estaremos tão perdidos quanto ao que fazer com aquele lindo presente que podemos perdê-lo.
Arthur, então, é a "pessoa certa"? Você pode imaginá-los morrendo juntos 50 anos depois ou se separando alguns meses depois dos eventos do filme. Tanto faz. Os dois tiveram seu tempo juntos. Mas o que isso faz de Hae Sung? Talvez um azarado. Mas ele não é mais incompleto do que os outros dois personagens. Para todos, haverá sempre algo faltando.

Mas o que isso faz de Nora? Para ela, o que ela não diz parece ter dificuldades em se conter inteiramente dentro dela. Hae Sung, antes do passeio de barco — este que Nora nunca levou Arthur —, a lembra do seu sonho infantil de ganhar um Nobel. Ela diz não saber o prêmio que iria querer nos dias atuais. Novamente, Hae Sung a traz para um lado muito mais completo de quem ela costumava ser, puxando ela a ter um sonho novamente enquanto Arthur a comove a viver a vida de casados em complemento um do outro.
O olhar de Nora, seu sorriso se desfazendo quando percebe sua mente confusa; seus gestos são mil palavras. Hae Sung comenta duas vezes em dois dias diferentes sobre ela ser muito jovem para já ter um marido, e nas duas ela parece um pouco incerta, até mesmo defensiva quanto a isso. Vemos uma Nora um pouco mais conflitada do que na noite anterior, com Arthur na cama. Ela não parece muito distinta de quem era em 2012 quando fala com Hae Sung, enquanto parece outra pessoa com Arthur.
Então, quem é a verdadeira Nora? Seria, acho, a que existe à distância dos dois, a que habita e grita em sua mente quando ela parece estar pensando demais. A Nora que é incompleta sozinha, não a que é incompleta acompanhada. A Nora que fala em coreano nos seus sonhos, mas também a que escreve seus livros e se expressa artisticamente em inglês.
É impossível continuar falando de Vidas Passadas e não mencionar o filme Desencanto (1945) de David Lean, adaptado da peça de Noël Coward. Filmes com a estrutura do de Celine sempre batem em teclas próximas às de Noël, com o casal impossível e as complicações da incompletude. Mas os paralelos se tornam mais chegados na última cena de Hae Sung com Nora, onde eles esperam pelo Uber dele.
Nora leva Hae Sung até o ponto de espera. Eles se enchem de silêncio e, aos poucos, se olham e sorriem. Nora parece, inicialmente, não querer o olhar fixamente, querendo partir com seu olhar logo. Hae Sung fixa os olhos nela, querendo ficar. Ele se vira lentamente, aos poucos, abandonando a mala e obrigando ela a estar no mesmo lugar que ele, agora de verdade; os pensamentos indecifráveis e não ditos que correm pelos dois.
Por um breve momento, eles sentem um adeus eterno. Eles precisam se abandonar, contra o instinto de se completarem, finalmente. A tensão quebra quando o Uber chega, e Hae Sung parte. Nora tem uma longa caminhada até Arthur, que não conseguiu esperar dentro de casa.
Nora desaba em Arthur, finalmente deixando-se sentir seu sofrimento. Quando Arthur a abraça, é quase exata a comparação com o filme de Noël. Podemos quase imaginar Arthur dizendo para ela, em seus braços e descendo dos altos que acaba de sentir, "Você esteve distante por muito tempo. Obrigado por voltar para mim."
Em Noël, Alec se despede de Laura na estação de trem enquanto se desculpa. Se desculpa por tê-la conhecido, por tê-la amado, por tê-la causado tanto sofrimento. Ela diz que o perdoa se ele a perdoar do mesmo.
Com Celine, Hae Sung não deixa Nora se desculpar de nada. Não há nada pelo que se desculpar. Noël faz o último encontro de Alex e Laura ser interrompido, praticamente incompleto. Celine faz o último encontro de Hae Sung e Na Young parecer eterno, um dos vácuos mais cheios que o filme proporciona. Interrompido e incompleto, também.
Quando eles se encontram, adultos, pela primeira vez, após um longo período de choque de Hae Sung, ela quebra o vão criado com um abraço. Na partida, é a vez dele, pois ela é a imóvel.

Com Vidas Passadas, Celine Song reflete continuamente sobre o conceito de In-Yun. O que seriam Hae Sung e Nora em suas vidas passadas? O que seriam Hae Sung e Arthur em suas vidas passadas? O que seriam Hae Sung e Nora em vidas futuras? Para Celine, é essencial que não sabemos, mas que pensemos nas possibilidades.
Pela distância da tela, que é uma janela, fazemos o exercício do casal do começo do filme. Dessa vez, procuramos por uma resposta para perguntas bobas, sobre possibilidades que se estendem além da vida e além do que é visto na tela.
Mas é interessante. Todos os pensamentos que desenvolvo olhando as árvores no meu trajeto de ônibus. São muitas as coisas que eu me digo as quais eu não acredito, mas sei que devem ser certas. Talvez eu acredite, mas não quero aceitar.
Então, olhando pela janela, eu penso em algumas coisas que não digo sempre. Eu penso em uma vida possível, no futuro, extensa e incompleta em conjunto. Eu penso em mandar uma mensagem. Eu penso nisso toda hora. O que eu digo para me impedir eu não acredito, mas deve ser o certo.
Mas preciso ser absoluto? Preciso estar certo o tempo todo? Não posso ser feliz por um momento, de novo, se eu decidir estar um pouco errado?
Eu não sei, e a cada dia eu sei menos. Mas acredito que o que Celine mostra através de Hae Sung é a tentativa de personificar alguém que não se incomodaria com isso. Alguém que vive incerto e com alguma coisa faltando.
Como se vive assim? Tal não gostaria de estar um pouco errado, de não se contentar com o que imagina em silêncio? Eu não sei, e não sei se saberia em mil anos.
Mas o fantasioso é completo, já a realidade, não.
Fiquemos com a ideia de que Nora e Hae Sung tiveram seu final feliz em uma outra vida.
Nessa, tem alguma coisa faltando.
- — Albert Camus, O mito de Sísifo. ↩︎
- — Nota do editor: O autor desse texto achou importante afirmar que ele adora essa posição também. ↩︎




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